sábado, 3 de julho de 2010

O Evangelho Negro

O evangelho segundo Ozzy


Ozzy Osbourne satiriza a mitologia em torno de sua pessoa no recém-lançado "Eu sou Ozzy". O livro fala abertamente das mancadas e das glórias que o pai do Heavy Metal protagonizou

Uma das exigências contidas no contrato que Ozzy Osbourne assinou para participar do Rock in Rio ´85 soava insólita. O cantor inglês ficava proibido de devorar animais vivos no palco. O episódio ilustra bem a importância que as lendas pessoais tem na vida de John Michael Osbourne, filho de uma família pobre, de pais operários, em 1941, na cinzenta e tediosa Aston (Birmingham). Ele conta sua história em "Eu sou Ozzy"recém-lançado no Brasil.

"Eu sou Ozzy" segue a cartilha de outros autobiografias roqueiras, como as de Anthony Kiedis (Red Hot Chili Peppers), Eric Clapton, Slash e Ronnie Wood (Rolling Stones). A receita é de um panorama memorialístico, em que não podem faltar comentários sobre as criações mais famosos do músico, de seus esbarrões com outras estrelas da indústria fonográfica, fartas doses de aventuras sexuais e o "inferno" das drogas.


Desfazer as ilusões de que era um praticante de magia negra faz parte de uma postura surpreendente de Ozzy: a honestidade. Ele não esconde seus podres, mesmo quando estes não tem nada de cômico. Como quando se refere as vezes em que bateu em sua esposa, Sharon; a não ter sido generoso com seus pais, quando o dinheiro começou a entrar; e na passada de perna que a banda deu em seu primeiro empresário, o cara que fez o Sabbath gravar seu primeiro - e clássico - álbum, em 1970.

Altos e baixos

Ozzy não tem problemas em falar da infância e da adolescência passadas de forma quase miserável, com os pais se matando de trabalhar. Fala das dificuldades na escola (ele já era adulto quando descobriu ser disléxico e sofrer de déficit de atenção e hiperatividade), dos primeiros empregos (em um, cheirava graxa; em outro matava e limpava animais), das experiências com roubo e de quando passou três meses na prisão por uma delas. Ah, e claro, das toneladas de cocaína que cheirou nos anos 70 e 80. "Vol. 4", um dos melhores trabalhos do Sabbath, estava cheio de referências ao pó. Originalmente se chamaria "Snowblind", título de uma canção do disco que falava da tão amada substância.

Está no livro um relato franco sobre o começo difícil da carreira musical. Ozzy fala de como nada deu certo até surgir o Black Sabbath. Abertamente, ele atribui os principais créditos da estética musical da banda ao guitarrista Tony Iommi, seu velho colega dos tempos de escola. Foi de Tony a ideia do peso extra da banda, foi de Tony a ideia de fazer músicas que mexessem com o medo das pessoas, tirada de uma observação do enorme interesse dos jovens em filmes de terror. Há mesmo uma surpreendente declaração sobre o heavy metal, termo do qual ele diz não gostar: "Nós certamente não o inventamos. Até onde lembro, éramos apenas uma banda de blues que tinha decidido escrever música de medo". Nesse tom generoso, segue falando de seu sucesso solo nos anos 80, dos penteados horríveis, do saudoso guitarrista Randy Rhoads, do gigantismo dos anos 90 (com seu festival OzzFest) e dos tempos recentes, em que se tornou uma celebridade que vai além das fronteiras do metal.

MEMÓRIAS

Eu sou Ozzy
Ozzy Osbourne


FONTE: Caderno 3 - Globo.com

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